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A tua alimentação é o teu medicamento

""A tua alimentação é o teu medicamento” – esta é provavelmente a frase mais vezes mencionada quando se fala de alimentação saudável e do impacto que os alimentos têm na nossa saúde. Mas apesar disso, nem sempre são os alimentos saudáveis que abundam nos hábitos alimentares de muita gente, e menos vezes recorremos aos alimentos para melhorar a nossa saúde. Além disso, muitas das nossas doenças crónicas estão direta ou indiretamente associadas aos nossos hábitos alimentares, e quando se falam dos problemas da vida, muitos dos desabafos terminam: "mas haja saúde!” como se a nossa saúde fosse apenas uma questão de sorte ou azar. 

Sim, há obviamente azares que nos atingem, como os acidentes, ou as possíveis consequências para a nossa saúde após um episódio emocionalmente conturbado, ou mesmo uma infecção complicada difícil de combater, entre tantos outros exemplos. Mas ter o diagnóstico de diabetes tipo 2 quando somos obesos (saiba mais), ou ter uma doença cardiovascular quando a nossa alimentação se baseia em gorduras processadas e açúcar, não é azar, mas sim uma consequência. 

Para além destas associações mais óbvias, a alimentação é capaz de influenciar muito mais parâmetros da nossa saúde. Por um lado fornece-nos os nutrientes fundamentais (saiba mais) para que o nosso organismo possa funcionar de forma adequada, e por outro, é capaz de influenciar a forma como os nossos genes são lidos.

Comecemos para primeira parte – apesar de parecer óbvio, muitos de nós não tem a real noção do que significa "ter os nutrientes adequados para o adequado funcionamento do organismo”.

Se não tivermos as proteínas corretas (em especial alguns aminoácidos), o nosso organismo pode não ser capaz de produzir alguns dos neutrotransmissores que regulam o funcionamento cerebral, ou mesmo a produção de algumas hormonas. Se não tivermos determinadas gorduras o nosso sistema imune, o nosso cérebro, e todas as células do nosso organismos ressentem-se e muito! Para não falar das vitaminas e minerais fundamentais para o adequado funcionamento das nossas enzimas – tem realmente a certeza que quer deixar algumas destas suas "máquinas” paradas porque deixou de fornecer algum destes micronutrientes? Dependendo da enzima em causa, as consequências podem ser diversas.

Sabe-se hoje que a leitura do nosso código genético (saiba mais) é influenciada por diferentes factores ambientais, nomeadamente os alimentos que ingerimos. Uma alimentação inadequada parece induzir a leitura de diferentes genes favorecedores de algumas doenças, e uma alimentação saudável parece silenciar esses genes, e favorecer a leitura de genes mais protetores.

Os alimentos que ingerimos, mais do que aporte calórico e de diferentes nutrientes, funcionam como informação para as nossas células, orientando-as sobre o caminho a seguir. A alimentação pode assim ter uma influência no início, progressão e gravidade de diferentes doenças crónicas, nomeadamente nas de carácter inflamatório e oncológico.

Não é por falhar numa refeição que vai sofrer as consequências das suas escolhas, e se tiver as reservas adequadas até é capaz de aguentar períodos de maior carência do ponto de vista de alguns nutrientes. Isto porque esta máquina maravilhosa que é o nosso organismo está dotado de mecanismos de compensação fantásticos, sendo capaz de criar reserva, de ativar ou desativar determinadas vias como forma de compensação. 

Mas esta nossa fantástica capacidade de adaptação tem um lado menos bom: faz com que muita gente mantenha os maus hábitos alimentares e de estilo de vida porque ainda "não sente nada de mal”, deixando que o seu organismo se mantenha a funcionar com os planos B, e permitindo que se mantenham estados de inflamação de baixo grau, stress oxidativo e sobrecarga tóxica até que chega a um ponto em que as queixas começam a aparecer.


Fica então o conselho: que a sua alimentação seja o seu medicamento – comece por optar por alimentos verdadeiros, repletos de diferentes nutrientes e de preferência de origem biológica. A melhor parte? Pode começar já na próxima refeição!

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A de Alecrim

in Jornal Público,  
Por Pedro Carvalho, nutricionista

 "O alecrim é, provavelmente, a primeira erva aromática de que ouvimos falar na nossa vida. Ainda antes de estarmos despertos para todas as virtudes e benefícios dos alimentos que nos rodeiam, já o “alecrim aos molhos” é um clássico do nosso ensino primário!
De facto, a “flor do monte” faz uma descida etimológica ao extremo oposto ao ser baptizada pelos Romanos de “orvalho do mar”, fruto do seu aroma característico. E o alecrim faz essa junção fantástica entre os aromas da terra e do mar, parecendo que quando o utilizamos estamos a levar simultaneamente uma floresta e uma praia para dentro de casa!
Este fascínio aromático do alecrim faz com que muitas vezes seja plantado junto a apiários de modo a fazer a delícia das abelhas e aprimorar o sabor do mel. Poderíamos passar o artigo inteiro a falar sobre este fantástico e inconfundível contributo sensorial que o alecrim dá aos alimentos que o rodeiam, mas as suas vantagens não se esgotam na sua fragrância.
Neste contexto, o alecrim depois de seco é a erva aromática com maior capacidade antioxidante no seu estado puro, sendo apenas superado pelo cravinho e orégãos, mas em pó. Os compostos que conferem ao alecrim todo este potencial (ácido rosmarínico, cafeico e carnósico) são os responsáveis pelo seu efeito protector em alguns tipos de cancro – com destaque para o colorectal - ao diminuir a expressão de genes pró-inflamatórios implicados no desenvolvimento tumoral.
Também na modificação positiva das “gorduras do sangue” o alecrim tem uma palavra a dizer, tanto na diminuição do colesterol total e triglicerídeos, como na inibição de fenómenos de peroxidação lipídica, evitando assim complicações como a aterosclerose.
O alecrim será assim melhor se estiver mais próximo do mar do que da terra. Embora seja igualmente um excelente tempero para carnes fortes, é na companhia do peixe que alia plenamente o seu aroma ao seu potencial terapêutico.
 
*Assistente Convidado da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto
pedrocarvalho@fcna.up.pt"